quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009


Darjeeling. Índia. Fevereiro de 2007
Um céu aberto de lixo entre duas casas, ao fundo uma cascata, litros de fossa jorrando sobre o menino.
Uma das casas era um cubículo de poucos metros. Talvez três por cinco metros. Um colchão de arame e um cobertor. Era tudo quanto o proprietário dispunha para acolhimento.
Cá fora, numa tábua de alguns centímetros que separava a rua, desenhada num asfalto de terra, por onde aliás eu passava, e a casa, o homem lavava os dentes apoiado num corpo frágil, ossudo, elástico.
A outra casa tinha a porta e as janelas cerradas. Mas o anúncio num dos vidros da janela dizia: internet.
Darjeeling uma das grandes marcas mundiais. Um território distribuído por infinitos pequenos territórios privados espalhados pelo mundo. Um lugar do mundo onde os indianos são de todas as cores, com olhos de todos os feitios e os meninos conseguem imacular o branco das suas fardas, mesmo vivendo, entre pastas de lodo, imenso lixo e esgotos de céu aberto.
Darjeeling o lugar da Índia mais perto de Deus.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Rádio

É de facto um mundo fascinante e uma ajuda imprescindivel para perceber que nos ouvimos e lemos de um modo completamente dissonante daquele que os outros nos ouvem e leêm.
E ainda, outra verdade fundamental acerca de nós, que muitas vezes somos o «outro» no modo como nos ouvimos e lemos.
Em resumo: é importante sermos independentemente do que os outros pensam de nós e que a opinião dos outros a nosso respeito em nada altera aquilo que realmente somos.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

«Jamal» o rapaz da Esperança

Evidentemente que este título jamais contribuiria para vender «Quem quer ser Bilionário» mas Jamal, a personagem central do filme, é isso mesmo, a transfiguração da Esperança, a metáfora da vontade, a encarnação de uma ideia de amor...

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009


Uma lição de empreendedorismo, criatividade e participação cívica.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Sikkim, um lugar onde a terra acaba e o céu começa




No norte da Índia existe um pedaço de terra chamado Sikkim, um lugar onde a terra acaba e começa o céu, um lugar diferente de todos os lugares da Índia e do mundo. Gangtok a sua capital é um imenso povoado construído a partir do caos bem suportado pela cordilheira dos Himalaias. Um policia, pobremente vestido, protegido por luvas brancas que o cobriam da mão ao cotovelo aguenta serenamente o trânsito de pessoas e mercadorias sob uma roda de madeira entre quatro estradas estreitas, vertiginosas, labirínticas, que ligam o supé da cidade à bacia da montanha.
Todos os carros aqui no Sikkim têm medidas curtas: pequenos e estreitos. A rua principal da capital é pedonal. As lojas são todas parecidas em tamanho, pequenos quadrados de chocolate, e só os ingredientes alteram a cor. Mas como sabem o comércio, na Índia é farto de côr e de cheiros. Fomos o primeiro grupo de portugueses a «invadir» o Sikkim. Tivemos de pagar uma taxa sobre o luxo de viver uma semana nesta região do norte da Índia onde o ar é puríssimo e a terra virgem de maus tratos. E tivemos que pedir uma autorização especial para respirar o ar e partilhar do seu céu.
Foi no Sikkim que conheci um sapateiro cuja oficina ao ar livre ficava mesmo implantada na berma da estrada (os carros assobiavam para protegê-lo) apenas com um chapéu de sol para fustigar a luz intensa do seu amável cliente. A largura da oficina tinha o tamanho do seu corpo, um corpo ossudo, esguio, completamente repousado sobre pernas Yogui, mas o céu, esse, a altura da sua alma.
Foi também aqui no Sikkim que pela primeira vez convivi com autênticas comunidades budistas, comunidades de homens velhos, jovens e crianças, organizados segundo parcos recursos materiais, embora os seus Mosteiros estejam invariavelmente situados em geografias esteticamente indizíveis, mas com práticas que não deixam antever o glamoroso budismo do ocidente.
No Sikkim a ascese mística é toldada pela dura realidade da montanha. Às vezes dói muito para respirar. E o Mosteiro nunca fica perto. É bem lá no fundo da garganta do amor que a oração é dita repetindo à exaustão uma língua de sons agrestes. Não fossem os quadrados e os rectangulos de pano ao vento, cozidos uns aos outros, remoendo a ladainha da palavra, disseminando a ontologia da existência pelos lugares, aldeias e cidades e no Sikkim, respirar, era, de facto, o símbolo da trágica condição do humano.
Aqui no Sikkim gostei do movimento suave produzido por milhares de pessoas ao fim do dia batendo com os pés em passeios esburacados, gostei também, do silêncio da noite escura. O silêncio…o bem mais precioso da Índia.
Aqui no Sikkim gostei do cheiro a cardomomo que nós, os 25 portugueses, esgotámos no estreito comércio da rua pedonal.

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Fotos e Texto - Ana Paula Lemos